A construção de um patrimônio leva tempo, dedicação e trabalho árduo ao longo de toda uma vida. No entanto, o que acontece com esses bens quando não estamos mais presentes? Como garantir que nosso legado seja distribuído conforme nossos desejos? Como evitar conflitos familiares e a dilapidação do patrimônio construído com tanto esforço?
A resposta para estas perguntas está no planejamento sucessório e é sobre ele que vamos falar no texto a seguir.
O que é planejamento sucessório e por que ele é tão importante?
Resumidamente, o planejamento sucessório é um conjunto de medidas tomadas em vida para organizar a transferência do patrimônio aos herdeiros, minimizando conflitos, custos e impostos após o falecimento.
Mas que tal aprofundarmos no assunto? O planejamento sucessório pode ser um pouco mais complexo do que isso, pois é um conjunto de estratégias e ações que visam organizar a transferência de patrimônio, bens e responsabilidades de uma pessoa para seus herdeiros ou beneficiários, seja após seu falecimento ou em caso de incapacidade.
Mais do que simplesmente decidir quem receberá o quê, o planejamento sucessório é um processo abrangente que busca preservar o patrimônio, reduzir a carga tributária, evitar disputas familiares e garantir que os desejos do titular sejam respeitados.
Em essência, o planejamento sucessório familiar representa um ato de cuidado e responsabilidade com os familiares.
Enquanto muitos consideram o tema tabu ou preferem adiar essa conversa, a verdade é que planejar a sucessão de bens é um dos maiores gestos de amor que podemos oferecer aos nossos entes queridos, poupando-os de complicações jurídicas, financeiras e emocionais em um momento já naturalmente difícil.
O planejamento patrimonial com foco na sucessão não é exclusivo para pessoas extremamente ricas ou empresárias. Na realidade, qualquer pessoa que possua bens, sejam eles uma casa, investimentos, participações em empresas ou mesmo objetos de valor sentimental, pode considerar como esses itens serão transmitidos aos seus sucessores.
As bases legais do planejamento sucessório no Brasil
Para compreender a importância do planejamento sucessório, é fundamental conhecer as bases legais que regem o direito sucessório no Brasil.
O Código Civil brasileiro estabelece que, na ausência de um testamento válido, a herança será distribuída de acordo com a ordem de vocação hereditária, que determina quem são os herdeiros necessários e em qual ordem eles recebem os bens.
Os herdeiros necessários, que têm direito a pelo menos 50% do patrimônio (a “legítima”), são os descendentes (filhos e netos), os ascendentes (pais e avós), cônjuge ou companheiro(a), dependendo do regime de bens adotado no casamento ou união estável, e os colaterais.
A ordem da sucessão, isto é, a ordem como a herança será distribuída, é definida por lei (conferir a partir do art. 1.829 do Código Civil).
Os outros 50% do patrimônio (a parte “disponível”) podem ser livremente destinados conforme a vontade do titular, por meio de testamento.
Importante: em alguns casos o patrimônio é compartilhado entre as pessoas, cabendo a transmissão apenas de metade do patrimônio, que de fato é a herança. A outra metade é a “meação” do cônjuge ou companheiro sobrevivente. Vamos pensar em um exemplo? Um casal com regime de comunhão parcial terá 50% dos bens para cada, e somente os 50% do falecido serão distribuídos.
Entretanto, mesmo com essas limitações, existem diversas estratégias dentro do planejamento sucessório que permitem otimizar a transferência de bens, minimizar impostos e evitar conflitos. Por isso, o planejamento sucessório não é apenas uma questão de cumprir a lei, mas de utilizá-la de forma inteligente para atingir os objetivos desejados.
Quais as vantagens de um planejamento sucessório bem estruturado?
Um planejamento sucessório bem estruturado oferece inúmeros benefícios, tanto para o titular do patrimônio quanto para seus herdeiros. Entre as principais vantagens, podemos destacar:
Proteção patrimonial
O planejamento sucessório proporciona mecanismos para proteger o patrimônio contra riscos externos, como processos judiciais, credores ou até mesmo administração ineficiente por parte dos herdeiros. Através de estruturas societárias adequadas e instrumentos jurídicos específicos, é possível blindar os bens e garantir sua preservação para as gerações futuras.
Redução da carga tributária
A transmissão de bens por herança está sujeita ao Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD), cuja alíquota varia conforme o estado, podendo chegar a 8% do valor do bem. Com o planejamento sucessório, é possível adotar estratégias que minimizem essa incidência tributária, resultando em economia significativa para os herdeiros.
Prevenção de conflitos familiares
Infelizmente, disputas por herança são extremamente comuns e podem destruir relações familiares. Um planejamento sucessório claro, que define precisamente como os bens serão distribuídos, reduz drasticamente o risco de litígios entre herdeiros, preservando a harmonia familiar em um momento de luto.
Agilidade no processo de inventário
O inventário tradicional pode ser um processo lento e custoso, levando anos para ser concluído em alguns casos. Com o planejamento sucessório adequado, muitos bens podem ser transferidos de forma mais ágil, por meio de instrumentos que não dependem do processo de inventário, garantindo que os herdeiros tenham acesso aos recursos quando mais precisam.
Continuidade dos negócios familiares
Para empresários, o planejamento sucessório é crucial para garantir a continuidade dos negócios após seu afastamento.
Definir quem assumirá o controle da empresa, como será a transição de poder e quais herdeiros participarão da gestão são questões essenciais para evitar a falência do negócio, algo que infelizmente acontece com frequência na ausência de um plano sucessório.
6 ferramentas e estratégias para um planejamento sucessório
O planejamento sucessório conta com diversas ferramentas jurídicas e estratégias que podem ser combinadas de acordo com as necessidades e objetivos de cada família. Vamos conhecer as principais:
1. Testamento
O testamento é o instrumento mais tradicional do planejamento sucessório e permite que a pessoa defina como deseja que seus bens sejam distribuídos após sua morte, respeitando a legítima dos herdeiros necessários.
Além da distribuição patrimonial, o testamento pode conter disposições sobre guarda de filhos menores, nomeação de tutores, reconhecimento de filhos e outras questões pessoais importantes.
O testamento pode ser público (lavrado em cartório), cerrado (sigiloso) ou particular (escrito pelo próprio testador), cada um com suas particularidades e requisitos legais. Independentemente da forma escolhida, é fundamental que o testamento seja elaborado com assessoria jurídica especializada para garantir sua validade e eficácia.
2. Doação em vida
A doação em vida é uma estratégia que permite transferir bens aos herdeiros ainda durante a vida do doador, apesar de também ser necessário o pagamento de impostos. Essa antecipação da herança pode ser feita com ou sem reserva de usufruto, que permite ao doador continuar utilizando o bem até seu falecimento, mesmo tendo transferido a propriedade.
As doações podem incluir cláusulas de inalienabilidade (proibição de vender), impenhorabilidade (proteção contra dívidas) e incomunicabilidade (exclusão do cônjuge do herdeiro), oferecendo maior proteção aos bens doados.
Importante ressaltar que doações feitas em vida devem ser computadas no cálculo da legítima quando do falecimento do doador.
3. Holdings familiares
A criação de uma holding familiar, empresa cujo objetivo principal é controlar o patrimônio da família, tem se tornado uma estratégia cada vez mais popular no planejamento sucessório.
Ao transferir bens imóveis, participações societárias e outros ativos para a holding, o processo sucessório se torna mais simples, pois envolverá a transferência de quotas ou ações da holding, e não de cada bem individualmente.
Além da facilitação do processo sucessório, as holdings familiares oferecem vantagens fiscais, proteção patrimonial e melhor gestão dos bens, centralizando as decisões e profissionalizando a administração do patrimônio familiar.
4. Seguros de vida
Os seguros de vida são ferramentas valiosas no planejamento sucessório, pois permitem destinar recursos diretamente aos beneficiários indicados na apólice, sem necessidade de inventário.
O valor do seguro não integra o patrimônio do falecido para fins sucessórios, sendo pago diretamente aos beneficiários, que também não precisam recolher ITCMD sobre esses valores em muitos estados.
Essa estratégia é especialmente útil para garantir liquidez imediata aos herdeiros, que muitas vezes enfrentam dificuldades financeiras enquanto aguardam a conclusão do inventário para ter acesso aos bens herdados.
Quer saber mais sobre o seguro de vida?
5. Previdência privada
Assim como os seguros, os planos de previdência privada VGBL (Vida Gerador de Benefício Livre) podem ser utilizados como instrumento de planejamento sucessório. Os recursos investidos em VGBL não entram no inventário, sendo pagos diretamente aos beneficiários indicados, geralmente com tributação mais favorável e maior agilidade.
A gente te conta mais sobre a previdência privada aqui.
6. Trusts e fundações
Em casos de patrimônio significativo, especialmente com bens no exterior, estruturas como trusts e fundações podem ser consideradas.
Essas estruturas permitem maior flexibilidade na gestão e distribuição do patrimônio, podendo estabelecer regras específicas sobre como e quando os herdeiros terão acesso aos recursos, o que é particularmente útil em casos de herdeiros menores ou que necessitam de proteção especial.
Como fazer um planejamento sucessório para diferentes perfis?
O planejamento sucessório deve ser personalizado de acordo com o perfil do titular do patrimônio e de seus herdeiros. Vejamos algumas situações específicas:
• Empresários e empreendedores
Para quem possui empresas ou participações societárias, o planejamento sucessório envolve não apenas a transferência de propriedade, mas também a preparação da próxima geração para assumir a gestão dos negócios.
Isso pode incluir a profissionalização da empresa, a criação de conselhos de administração e familiar, e o desenvolvimento de um plano de transição gradual que permita a preservação do conhecimento e dos valores que sustentam o negócio.
• Famílias com filhos menores ou portadores de necessidades especiais
Quando há herdeiros menores ou com necessidades especiais, o planejamento sucessório deve prever não apenas a distribuição de bens, mas também a nomeação de tutores, curadores e administradores que garantam o bem-estar e a adequada gestão do patrimônio desses herdeiros vulneráveis.
Estruturas como fundos de investimento administrados por terceiros podem ser alternativas para garantir a correta aplicação dos recursos em benefício desses herdeiros.
• Famílias reconstituídas
Com o aumento dos divórcios e novos casamentos, o planejamento sucessório em famílias reconstituídas (com filhos de relacionamentos anteriores) tornou-se mais complexo. Nestes casos, é fundamental equilibrar os interesses do cônjuge atual e dos filhos de diferentes relacionamentos, evitando conflitos futuros.
A escolha adequada do regime de bens no novo casamento e a utilização de instrumentos como doações em vida e testamento são essenciais para garantir que todos os entes queridos sejam contemplados conforme o desejo do titular do patrimônio.
Quando iniciar o planejamento sucessório?
Um erro comum é pensar que o planejamento sucessório deve ser feito apenas por pessoas idosas ou doentes. Na realidade, o momento ideal para iniciar esse planejamento é quando se começa a acumular patrimônio e, especialmente, quando se constitui família. Quanto mais cedo o planejamento for iniciado, maiores as possibilidades de otimização e menores os custos envolvidos.
Além disso, o planejamento sucessório não é um evento único, mas um processo contínuo que deve ser revisado periodicamente, especialmente após mudanças significativas na vida familiar (nascimentos, casamentos, divórcios) ou patrimonial (aquisição ou venda de bens importantes, abertura ou fechamento de empresas).
A importância do acompanhamento profissional
Devido à complexidade das questões jurídicas, tributárias e familiares envolvidas, o planejamento sucessório deve ser elaborado com o apoio de profissionais especializados.
Advogados com expertise em direito de família e sucessões, contadores, consultores financeiros e, em alguns casos, psicólogos familiares podem contribuir para um planejamento mais eficaz e adequado às necessidades específicas de cada família.
Esses profissionais não apenas auxiliam na escolha das melhores estratégias técnicas, mas também facilitam o diálogo familiar sobre temas que muitas vezes são difíceis de abordar, como a distribuição do patrimônio e as expectativas quanto ao futuro dos negócios familiares.
Vale a pena fazer um planejamento sucessório?
O planejamento sucessório transcende a simples organização patrimonial, representando um verdadeiro ato de responsabilidade para com a família.
Ao definir claramente como deseja que seu legado seja administrado e distribuído, o titular do patrimônio proporciona segurança e tranquilidade aos seus entes queridos, evitando que eles precisem tomar decisões difíceis ou enfrentar conflitos em um momento de luto.
Portanto, independentemente do tamanho do patrimônio, o planejamento sucessório familiar é uma ferramenta essencial para quem deseja garantir que seus bens sejam distribuídos conforme sua vontade, de forma eficiente, justa e harmoniosa.
Se você ainda não iniciou seu planejamento sucessório, não adie mais essa importante decisão. Converse com profissionais especializados e comece a construir um legado de segurança para sua família.